Arquitetura
Conheça a Curitiba desenhada por Artigas
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Casa Nieclevicz, de Vilanova Artigas. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo | Gazeta do Povo
Na segunda parte da homenagem ao centenário do engenheiro-arquiteto João Batista Vilanova Artigas, a Haus revela as três obras remanescentes do mestre em Curitiba: o Hospital São Lucas (1945), a Casa João Luiz Bettega (1952) e a Casa Edgard Nieclevicz (1978).
Ele, que nasceu em Curitiba em 1915, foi estudar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, em 1937, e acabou ficando por lá. Mas sempre voltava ao Paraná, onde executou aproximadamente 40 projetos. Militante das causas sociais e comunista declarado, Artigas transformou a arquitetura de suas escolas, hospitais, clubes, cinemas, rodoviárias, prédios comerciais e residências em arte e discurso.
Casa Nieclevicz
Uma síntese do trabalho de Vilanova Artigas e quase uma casa manifesto. É como o arquiteto Marcos Bertoldi define o imóvel, no bairro Seminário, uma das últimas obras do profissional e a única em Curitiba pertencente à sua terceira fase. O projeto, de 620 m², foi executado entre 1978 e 1981 para sua sobrinha e o marido, o médico Edgard Nieclevicz. Artigas estava afastado das aulas na USP há quase uma década e a edificação se materializa como o que o arquiteto defendia e estava privado de viver.
A casa tem grandes estruturas de concreto aparente fora e muita luz dentro, como o edifício da FAU-USP. A fachada que se volta para a rua é cega, mas a casa, como a planta é em L construída por planos, tem um pátio central com piscina que se integra ao imóvel por meio de panos de vidro e pérgolas. Outro detalhe é a caixa d’água vermelha, que na época destacava-se na paisagem pouco verticalizada.
Hoje o edifício é o escritório e residência de Bertoldi, que a recuperou, a partir de 2002, com alterações pontuais. “Essa casa estava no meu imaginário desde os tempos da faculdade. O período que cursei Arquitetura coincidiu com a construção da casa. Como estudante era fascinante observar a concretagem e um projeto icônico saindo do papel”, lembra.
Casa João Luiz Bettega
Coincidência ou não, as três construções de Vilanova Artigas que restam em Curitiba estão relacionadas de alguma forma com a Medicina. A residência da Rua da Paz, que hoje abriga bistrô e livraria, foi projetada para o médico João Luiz Bettega, amigo próximo do arquiteto.
Com 496 m², a casa tem quatro quartos, sendo um deles suíte, e salas de estar e jantar integradas, diferente do que era usado na década de 1950. A entrada da luz do sol em boa parte da casa foi pensada para garantir o conforto térmico, principalmente no inverno, e a lareira foi localizada no centro da sala para aquecer e animar ainda mais os saraus e as festas da família. “A ideia da casa como espaço de convivência familiar igualitário é uma das fortes características do Artigas”, descreve a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná, Juliana Suzuki.
Outra característica é que a dependência dos empregados foi projetada como um apartamento à parte, com entrada independente, mas integrada ao corpo da casa por meio de uma escada caracol, que é uma das marcas do arquiteto e traz à área de serviço grande importância – traços da militância pela igualdade social. “Artigas tinha uma sensibilidade fantástica para criar uma arquitetura para o homem, enquanto conceito. Seu foco em cada projeto era criar soluções para melhorar a vida das pessoas, muito mais que o apelo estético”, diz.
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Hospital São Lucas
Em julho de 1945, Artigas foi contratado para projetar e construir o edifício que abriga o Hospital São Lucas, no Juvevê. Com domínio da linguagem modernista, o arquiteto criou uma obra despojada e de grande racionalismo construtivo. Para o professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Salvador Gnoato, o mestre se utilizou de princípios corbusianos (inspirados no arquiteto francês Le Corbusier) na construção do hospital: rampas, pilotis (pilares cilíndricos), janelas em fita, terraços e jardins.
Era uma construção irreverente para a época. Durante o Estado Novo, que termina em 1945, as obras tinham um aspecto muito solene, pesado. E o hospital, por sua vez, veio com linhas simples, sem ornamentos ou fachada convencional. “O projeto ficou tão bem feito, que estamos comemorando 60 anos da sua construção e, salvo alguns anexos, o hospital permanece intacto, mesmo estando em um terreno tão irregular”, comenta o professor.
Vilanova Artigas projetou os quartos principais para o norte, a fim de garantir a insolação, e uniu o bloco da enfermaria e do centro cirúrgico por rampas – uma constante em toda sua obra.
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